A Simetria é tão sem graça

Passo um tempo considerável diante do espelho nas manhãs, retocando a máscara de quem supostamente tem a vida sob controle. Escolho com precisão o desleixo planejado — aquele que o mercado de afetos exige agora — e saio de casa com a postura de quem não tem nada a perder.

Existe um prazer quase perverso em subir no salto, literal ou metaforicamente, apenas para provar um ponto que ninguém pediu. Entro na cena com ar de superioridade que desmorona no primeiro contato visual. É quase cômico o quanto nos esforçamos para parecer inteiros enquanto juntamos os próprios cacos no banco de trás de um Uber às sete da manhã, pagando o preço de um afeto que nasce e morre antes do próximo sinal.

A simetria — essa perfeição de quem acorda pronto, de quem tem resposta para tudo e feed organizado por cores — chega a ser ofensiva de tão artificial.

Eu estou caindo, como cantam os meninos do Terno Rei em "Yoko". A queda tem ritmo animado, quase festivo, e por um instante me convenço de que o impacto é detalhe. O “oi, como vai você” seguido do espanto protocolar soa vazio quando o que sinto é a escassez do tempo e um frio que a vida entrega sem aviso.

A gente esconde as rachaduras com filtros e acabamento digital, como se o caos não fosse nosso habitat natural. Mas talvez o que nos torna minimamente suportáveis sejam justamente os erros — não a versão polida que insistimos em vender.

Eu também jogo o jogo. Julgo, performo, deslizo o dedo na tela como quem escolhe mercadoria em promoção. Sorrisos clareados, biografias estrategicamente bem escritas, vidas organizadas como vitrines. Cansa tentar encontrar desvio em meio a tanta gente empenhada em parecer impecável.

Os melhores encontros que tive foram aqueles em que ninguém estava tentando convencer ninguém de nada. Uma doideira honesta, dessas que não cabem no feed. A solidão é inconveniente, mas ninguém nos prepara para a ressaca de ser sublime por uma noite. E quando inesperadamente, ganhamos aquele abraço quente que, como canta a Gal, "preenche o vazio". A gente esquece do mundo, mas não esquece do que vem, na maioria das vezes, em seguida.

No fim, o sublime é só um intervalo curto entre uma queda e outra. Insistimos como quem comete pequenos crimes sorrindo, dançando conforme a música. E talvez seja nesse desajuste festivo que eu me sinta em casa: não porque aprendi a voar, mas porque já decorei o caminho até o chão.

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