A Simetria é tão sem graça
Passo um tempo considerável diante do espelho nas manhãs, retocando a máscara de quem supostamente tem a vida sob controle. Escolho com precisão o desleixo planejado — aquele que o mercado de afetos exige agora — e saio de casa com a postura de quem não tem nada a perder. Existe um prazer quase perverso em subir no salto, literal ou metaforicamente, apenas para provar um ponto que ninguém pediu. Entro na cena com ar de superioridade que desmorona no primeiro contato visual. É quase cômico o quanto nos esforçamos para parecer inteiros enquanto juntamos os próprios cacos no banco de trás de um Uber às sete da manhã, pagando o preço de um afeto que nasce e morre antes do próximo sinal. A simetria — essa perfeição de quem acorda pronto, de quem tem resposta para tudo e feed organizado por cores — chega a ser ofensiva de tão artificial. Eu estou caindo, como cantam os meninos do Terno Rei em "Yoko". A queda tem ritmo animado, quase festivo, e por um instante me convenço de que o i...