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Pontinho

  Pontinho Alegre, vivo, inesperado — foi assim que você chegou: um pontinho brilhante, do mais cheio de cor. Quis desvendar, tintim por tintim, de onde vinha esse brilho que dançava causando frisson. E eu, que já medi o mundo em mil voltas e distâncias, recordei por um instante que ainda sabia pertencer. No meio da folia, não havia como prender nem razão pra fugir. Era perceber que é isso o movimento — o que nos move por dentro. E sentir o corpo leve, como se a vida, antes inquieta, voltasse a caber no peito. Se um dia a gente se perder de vista, que não seja por medo. Que seja porque a terra pede movimento e nós também. Mas hoje esqueçamos essa de tomar cuidado com o fim. Quero só esse aconchego, esse seu jeito de ser sem pedir licença. um pontinho, do mais cheio de cor. E o mais bonito — é como me encantou.

A Simetria é tão sem graça

Passo um tempo considerável diante do espelho nas manhãs, retocando a máscara de quem supostamente tem a vida sob controle. Escolho com precisão o desleixo planejado — aquele que o mercado de afetos exige agora — e saio de casa com a postura de quem não tem nada a perder. Existe um prazer quase perverso em subir no salto, literal ou metaforicamente, apenas para provar um ponto que ninguém pediu. Entro na cena com ar de superioridade que desmorona no primeiro contato visual. É quase cômico o quanto nos esforçamos para parecer inteiros enquanto juntamos os próprios cacos no banco de trás de um Uber às sete da manhã, pagando o preço de um afeto que nasce e morre antes do próximo sinal. A simetria — essa perfeição de quem acorda pronto, de quem tem resposta para tudo e feed organizado por cores — chega a ser ofensiva de tão artificial. Eu estou caindo, como cantam os meninos do Terno Rei em "Yoko". A queda tem ritmo animado, quase festivo, e por um instante me convenço de que o i...

Cinco cilindros em V

 Existe uma nota grave, levemente rouca e propositalmente fora de compasso que só o motor de cinco cilindros consegue emitir. Para quem observa de fora, é apenas o ruído de uma máquina inconveniente em deslocamento, mas para mim é uma assinatura física, dá tesão de ouvir. O motor VR5, com sua arquitetura peculiar de quinze graus de inclinação - esse arranjo técnico desenhado para caber onde, teoricamente, não haveria espaço - sempre me pareceu uma metáfora perfeita para as coisas que tentamos espremer dentro de nós mesmos (se você só entendeu besteirol até aqui, pode ser que seja também ). Embora só tenha ouvido esse ronco ao vivo uma única vez na vida, num evento de donos de VW Golf na Inglaterra em 2014, me contento ao ouvir de longe o inconfundível som de um Jetta/RS3 2.5 ou o infame, mas inconfundível, Marea 2.4 (Todos 5 cilindros em linha), meu ouvido sabe até hoje a diferença de cada um desses motores e modelos. É um talento inútil, herança de um tempo em que meu mundo era me...

Heranças que não cabem na mala

 Tenho tentado, nos últimos tempos, reduzir minha existência (ou os objetos que fazem parte dela) ao volume de uma mala de mão. Há uma sedução/obsessão quase matemática nesse minimalismo, uma promessa ecoante em minha mente de que, ao descartar o excesso de matéria, a alma encontrará cada vez mais a leveza necessária para transitar pelo mundo sem deixar amarras. Mas a verdade é que a matéria é a parte mais fácil de abandonar. É simples doar uma coleção de revistas ou desfazer-se de móveis que já não servem ao propósito de habitar um novo quarto - A propósito, comecei o texto após uma exaustiva "pequena mudança", mais uma das incontáveis que já fiz. O problema está em perceber, a cada revisita que faço as minhas posses e as lembrança que elas evocam, de que, por mais que eu selecione as peças de roupa, os livros e decorações com rigor, existe uma carga que não se deixa dobrar e que ocupa um espaço absoluto, embora não possua massa. São as heranças que não cabem na mala, aquela...