Cinco cilindros em V

 Existe uma nota grave, levemente rouca e propositalmente fora de compasso que só o motor de cinco cilindros consegue emitir. Para quem observa de fora, é apenas o ruído de uma máquina inconveniente em deslocamento, mas para mim é uma assinatura física, dá tesão de ouvir. O motor VR5, com sua arquitetura peculiar de quinze graus de inclinação - esse arranjo técnico desenhado para caber onde, teoricamente, não haveria espaço - sempre me pareceu uma metáfora perfeita para as coisas que tentamos espremer dentro de nós mesmos (se você só entendeu besteirol até aqui, pode ser que seja também). Embora só tenha ouvido esse ronco ao vivo uma única vez na vida, num evento de donos de VW Golf na Inglaterra em 2014, me contento ao ouvir de longe o inconfundível som de um Jetta/RS3 2.5 ou o infame, mas inconfundível, Marea 2.4 (Todos 5 cilindros em linha), meu ouvido sabe até hoje a diferença de cada um desses motores e modelos. É um talento inútil, herança de um tempo em que meu mundo era medido em cavalos e torque, e que hoje sobrevive como um eco anacrônico em meio às discussões sobre sustentabilidade e metros quadrados, que pautam meus intermináveis dias.

Muito antes de pensar em dissertações ou artigos científicos, eu mantinha um blogspot - esse mesmo onde decidi habitar o novo blog no qual estamos - hoje está perdido em algum limbo da internet, ou eu o deletei, pois este mesmo e-mail que utilizo hoje, é o daquela época. Recordo, inclusive, que meu sobrenome no Orkut era Matheus R32 (em alusão ao lendário sapão Mk4). Era um espaço de pura projeção, onde eu postava desenhos de conceitos de carros que eu mesmo criava, linhas aerodinâmicas que tentavam antecipar as próximas gerações dos meus carros favoritos. Eu escrevia críticas sobre o design dos lançamentos que via nas revistas, analisando a curvatura de um farol ou a proporção de uma grade com o rigor de quem examinava uma obra de arte sacra. Naquela época, o blog era o meu laboratório de percepção. Ali, eu já exercitava esse olhar que busca a essência das formas, embora o objeto fosse o símbolo máximo do consumo individualista que hoje questiono com tanta veemência. 

Desenhar e escrever era uma forma de possuir aqueles carros que eu sabia que nunca teria, uma maneira de transformar o fetiche em narrativa.

Às vezes, me pego pensando naquele garoto que desenhava carros e que via no som de um motor 5cc a promessa de uma potência que a vida adulta raramente entrega de forma tão limpa. O Blogspot desapareceu, mas o hábito de observar o mundo através de uma lente técnica e estética permaneceu. Eu troquei o design industrial pela arquitetura, e mais atualmente pelas ideias do Bem Viver, mas quando o som irregular daquele motor atravessa o silêncio da rua (esses dias ganhei uma carona em um Mk3, que segundo o proprietário, só teve um dono e quase não saia da garagem - tava impecável.. e claro que ele não perdeu a oportunidade de instalar um difusor e me mostrar o ronco - do motor!), percebo que a minha subjetividade ainda é habitada por esses fetiches mecânicos.

Aos doze anos, minha estante de livros era habitada por pilhas de revistas de Quatro Rodas que se acumulavam no canto do quarto, e que colecionei mês a mês até os 17, 18 anos. Aquelas publicações eram, para mim, o que os livros teóricos são hoje. Naquele silêncio doméstico de uma relação difícil com meu pai, as revistas funcionavam como uma moeda de troca, um território onde podíamos coexistir sem as fricções do afeto negligenciado. Eu mergulhava nas especificidades técnicas, decorava detalhe por detalhe, não por uma paixão cega pelo automobilismo, mas com as lente de hoje, enxergo mais pela necessidade de ter tido algo sólido a dizer quando as palavras usuais faltassem.

Lembro com clareza das vezes em que o capô do carro era erguido e eu, do alto dos meus 1.685m, apontava para o bloco do motor e nomeava componentes que meu pais ou amigos dele julgavam serem segredos de mecânicos experientes. Ali, estabelecíamos uma conversa técnica que mascarava nossa incapacidade de falar sobre qualquer outra coisa. Ele se surpreendia com a minha precisão, e eu me sentia seguro sob o abrigo daquela autoridade intelectual que eu estava forjando através da leitura. O carro era o nosso único ponto de convergência, uma obra de engenharia que nos obrigava a olhar para a mesma direção, mesmo que por motivos opostos. O mesmo costumava acontecer quando eu desenhava plantas e fachadas de casas com precisão admirável para um moleque.

Era um exercício de poder sutil, uma forma de mostrar que eu também dominava aquele universo que eles consideravam exclusivamente masculino e seus.

Hoje, percebo que eu aprendi a decompor sistemas complexos antes de entender a complexidade das relações humanas. Aquela facilidade em identificar peças e falhas era um mecanismo de defesa, que me protegia da vulnerabilidade de um diálogo inexistente e de externalizar minha sexualidade, que ainda não tinha capacidade de elaborar, muito menos compartilhar, pois eu já sabia o que poderia acontecer. Olhar para trás e reconhecer esse processo é aceitar que a minha identidade hoje é indissociável desse passado, uma herança que, embora carregada de silêncios e distâncias, me deu as ferramentas para questionar o mundo com a mesma precisão com que eu outrora questionava o funcionamento de um motor em V.

O fim dessa "saga" aconteceu de forma quase ritualística, motivado pela ideia de ter alguma independência financeira no início da vida adulta, me convenci a precificar o que eu considerava inestimável. Carreguei o bolo de revistas até um antiquário no centro da cidade, onde me propuseram a oferta de cerca de um real por cada exemplar, um valor que não pagava sequer uma impressão de uma capa de qualquer uma delas, muito menos o valor das memórias contidas ali. Aceitei em silêncio, sem confrontar, saí de lá com o dinheiro nas mãos e um vazio que subia pelo peito, sentindo que havia vendido minha própria história por quase nada. Antes que o dia terminasse, o arrependimento me fez voltar, devolvi o dinheiro e recuperei todas as revistas, certo de que ainda não estava pronto para me despedir daquela versão de mim.

A ironia do destino se revelou quando, em uma das minha mudanças, bons anos depois, ao folhear novamente algumas das edições mais icônicas - inclusiva uma de um comparativo entre o Golf Mk4,5 e o Civic Si, percebi uma série de RASGOS. Pois logo eu dei um chilique e minha mãe veio contar o que havia ocorrido: ela ofereceu ao meu irmão caçula, na urgência de terminar um trabalho escolar, retalhar dezenas de revistas. Ele picotou parágrafos inteiros e imagens de motores para extrair letras, montando frases coloridas em cartolinas na época da escola primária. Ali, diante daquelas páginas mutiladas, o desapego finalmente foi acontecendo. Decidi então doá-las para uma tia que saberia destiná-las corretamente. Não quis guardar uma sequer. Mas o rancor deu lugar a um conselho que dei ao pequeno futuro artista - que ele guardasse todos os seus desenhos e rabiscos (no caso dele, incontáveis Homem-Aranha, com riqueza de detalhes e poses) que eu não tive a sorte, ou intenção de guardar.

Foi um golpe triste e necessário, uma espécie de wrecking ball no peito, com direito a linguinha maliciosa da Miley Saurus. Hoje, quando o ronco de um cinco cilindros corta o silêncio da rua, eu apenas escuto a vibração como quem não pega em um intrumento musical a tempos, mas que ainda reconhece cada nota e tempo.

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