Heranças que não cabem na mala
Tenho tentado, nos últimos tempos, reduzir minha existência (ou os objetos que fazem parte dela) ao volume de uma mala de mão. Há uma sedução/obsessão quase matemática nesse minimalismo, uma promessa ecoante em minha mente de que, ao descartar o excesso de matéria, a alma encontrará cada vez mais a leveza necessária para transitar pelo mundo sem deixar amarras. Mas a verdade é que a matéria é a parte mais fácil de abandonar. É simples doar uma coleção de revistas ou desfazer-se de móveis que já não servem ao propósito de habitar um novo quarto - A propósito, comecei o texto após uma exaustiva "pequena mudança", mais uma das incontáveis que já fiz. O problema está em perceber, a cada revisita que faço as minhas posses e as lembrança que elas evocam, de que, por mais que eu selecione as peças de roupa, os livros e decorações com rigor, existe uma carga que não se deixa dobrar e que ocupa um espaço absoluto, embora não possua massa. São as heranças que não cabem na mala, aquelas que vieram sem nota fiscal e que eu carrego como passageiros clandestinos em cada mudança de endereço.
É fato que elas têm diminuído com o tempo, enxergá-las é o primeiro passo. Lidar e mandar seguirem seu caminho, aí é que são elas.
Essas heranças, refiro-me aos vícios de linguagem, às defesas que levanto antes mesmo de ser atacado e aos silêncios que aprendi a cultivar como forma de sobrevivência, entre outras cositas más são o peso morto de uma história de ausências. Às vezes, me vejo repetindo gestos de um pai com quem mal falo, insistindo e falhando nas vontades que foram projetadas por outros em mim, ou reagindo com a mesma introspecção defensiva que marcou minha sobrevivência durante a época da escola. É uma bagagem comportamental que transborda pelas minhas tentativas de ser "leve". Por mais que eu estude a fio os célebres (e por vezes questionáveis) teóricos do comportamento humano e tente desaprender os padrões impostos, sinto que carrego comigo um arquivo de traumas e manias que insistem em se desdobrar assim que abro a bagagem em um novo lugar.
O esforço de viver com o essencial esbarra, de certa forma, na densidade disso que é invisível. A mala vai ficando leve, as prateleiras do novo quarto quase vazias, mas o ambiente parece saturado de uma presença que eu não convidei. É a herança de uma certa melancolia, de uma predisposição para o isolamento que parece ser um dos alicerces da minha identidade. Eu olho para o espaço minimalista que organizei e percebo que, no fundo, estou tentando mobiliar o vazio com a ausência de coisas, quando o que realmente ocupa espaço são os fantasmas das relações que não resolvi e as expectativas que ainda não consegui processar.
Essa herança pesada é a que até pouco tempo atrás não conseguia nomear, mas que sentia puxar os ombros em cada passo dado em direção ao que eu entendia por futuro.
Ocupar um quarto pequeno, planejado para o essencial, é um exercício de confrontação constante, e dos bons! As paredes crème do novo quarto, não escondem (seja pelas pequenas trincas ou descamações) camadas sobrepostas de cores que revelam a idade do local. A ausência de adornos deveria, em teoria, facilitar o silêncio necessário para a pesquisa e para o descanso. No entanto, é justamente nesse momento que as heranças mais ruidosas gostam de se manifestar com maior nitidez. Quando fecho a porta e me vejo sozinho, percebo que essas tendências não ficaram para trás, elas estão compactadas em algum compartimento da minha consciência, prontas para se expandirem ao menor sinal de estresse ou isolamento. Converso com elas quase que se já tivessem vida própria, elas negociam comigo até que eu me renda. Sabem melhor que eu, como jogar as cartas. Só depois eu reconheço que elas são eu. Essa parte é como um soco no estomago.
A dificuldade de renunciar a essa vida de estímulos imediatos reside no fato de que esses comportamentos funcionam como uma arquitetura de refúgio (palavras do meu terapeuta), embora sejam feitos de materiais altamente inflamáveis. É tentador retornar ao padrão comportamental que silencia a autocrítica, especialmente quando o peso de construir uma vida coerente parece exigir mais do que sou capaz de entregar. Carregar essa herança significa lidar com a ressaca moral de ciclos que desestruturam o sono, a alimentação e a capacidade de estudo. É um peso que não se despacha, ele viaja no corpo, na química do céu da boca e na memória da pele. A renúncia se torna uma negociação diária e exaustiva com uma parte de mim que ainda acredita que a destruição é a única forma de sentir alguma liberdade.
Essa bagagem invisível sabota a tentativa de estabelecer relações que fujam da lógica do consumo de momentos, corpos e de afetos. Como construir algo saudável e duradouro quando se está acostumado com o ritmo frenético das gratificações instantâneas? Há uma desaprendizagem necessária que dói tanto quanto qualquer abstinência física. O medo de viver de forma real - aquela que exige presença, vulnerabilidade e paciência - me faz olhar para a porta, buscando as rotas de fuga que já conheço tão bem. Percebo que o meu "minimalismo" atual ainda é uma fachada se eu não conseguir enfrentar o fato de que meu interior está entulhado de mecanismos de autodefesa que me impedem de garantir alguma forma de estabilidade duradoura. Dessas, acho que a herança mais difícil de descartar é o hábito de se sentir sozinho mesmo estando acompanhado, uma herança de quem aprendeu a encontrar conforto no que é efêmero para não ter que lidar com a solidez do que permanece.
Enxergar e aceitar que certas heranças não cabem na mala é, antes de tudo, um exercício de honestidade com a própria matéria de que sou feito. Entendi que a busca por uma leveza absoluta era apenas mais uma forma de negação, uma tentativa de higienizar minha história para que ela coubesse nos moldes de uma retidão que não me pertence. No laboratório, durente meus estudos do Mestrado na construção com terra, aprendi que a resistência de uma parede não vem da pureza estéril dos componentes, mas da combinação exata (e impraticável no dia-a-dia do canteiro de obras) de diferentes granulometrias, inclusive das impurezas que dão liga ao solo. Minhas falhas, meus ciclos de autossabotagem e as memórias amargas que carrego são os agregados que compõem minha estrutura atual. Sem eles, eu seria apenas uma abstração teórica, um projeto de pesquisador sem corpo e sem chão, incapaz de compreender a complexidade da realidade que, em grande parte é a razão dos modos de vir a ser de muitos nós, se não da maioria de nós.
Ai daquele que já se atreveu a dizer, alguma vez sequer, que não pediu pra ter vindo ao mundo, como forma de se eximir de qualquer responsabilidade em vida, rs.
A minha práxis tem passado necessariamente pelo reconhecimento de que não sou um observador neutro, mas um sujeito situado em um contexto maior e que me impacta de fora para dentro. Vivo em constante processo de restauração. Enxergo a vulnerabilidade não como uma fraqueza, mas como um ponto de conexão substancial com o outro. Transformo o peso da herança em ferramenta de análise, permitindo que a dor deixe de ser um fardo cego para se tornar um saber localizado e poderoso argumento crítico, seja numa roda de conversa ou numa conversa íntima com alguém querido. Viver nesse estado de vigília entre o que desejo ser e o que ainda carrego exige uma paciência que a cultura da urgência, das hiper-sei-lá-o-que tentam constantemente roubar. A mala continuará entreaberta, transbordando memórias que às vezes me puxam para trás, mas o caminho vai sendo trilhado, cada vez mais, com a consciência de que a beleza e felicidade residem justamente nessa impossibilidade de ser inteiramente límpido.
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